Cálculo ‘insano’ de Trump eleva tarifas dos EUA ao maior nível desde 1909; ações derretem 

O pandemônio tarifário de Donald Trump derrubou as Bolsas dos EUA, que tiveram hoje o seu pior dia desde março de 2020, no início  da pandemia.

Entre os principais índices, o maior tombo foi no Nasdaq, com queda de 6%. O S&P 500 caiu 4,8%, e o Dow Jones recuou 4%. As empresas americanas perderam US$ 3,1 trilhões em valor de mercado.

As companhias dependentes de mercadorias produzidas em países da Ásia – os mais castigados pelo tarifaço – registraram as quedas mais expressivas.

A Apple mergulhou 9%, a Dell, 19%, e a Best Buy, 18%. A Nike, que concentra a produção na China e no Vietnã, perdeu 14%.

O índice Russell 2000, de small caps, mergulhou 7% e já acumula uma queda de quase 22% desde novembro, quando havia atingido seu all-time high impulsionado pela expectativa de que o Trumponomics seria positivo para os lucros das companhias americanas.

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O Stoxx 600, índice de empresas europeias, caiu 2,7%. Algumas das maiores perdas foram da Adidas, com queda de 11%, e da Maersk, recuando 9,5%.

O dólar, medido pela cesta de moedas do índice DXY, perdeu 1,6% e acumula desvalorização de 6% no ano.

No Brasil, a cotação da moeda americana recuou 1,2%, fechando a R$ 5,62, menor preço desde outubro. Com o País sendo relativamente poupado tarifaço, o Ibovespa se destacou e fechou praticamente estável, com um recuo ínfimo de 0,04%.

A perspectiva de desaceleração na economia derrubou os juros futuros nos EUA. O yield do Treasury de 10 anos chegou a ficar ligeiramente abaixo de 4% pela primeira vez desde outubro.

Segundo uma análise do Budget Lab da Yale University, as novas medidas determinadas por Trump vão elevar as tarifas efetivas para 22%, incluindo os aumentos anteriores já anunciados. É o maior nível de tributação das importações desde 1909, de acordo com os pesquisadores.

Nas contas da Goldman Sachs, quando excluídas as exceções, o número final ponderado ficará ao redor de 15%, ante uma média de 2,5% até o ano passado.

É o maior choque tarifário desde Smoot-Hawley Tariff Act, a lei de políticas protecionistas assinada em 1930 pelo Presidente Herbert Hoover – um ato que acabou sendo marcado pelo aprofundamento da recessão nos EUA e o declínio do comércio internacional em todo o mundo.

“Nossos parceiros comerciais vão retaliar. O aumento de preços vai erodir a renda e dos gastos das famílias,” escreveu Michael Strain, diretor de estudos econômicos do think thank American Enterprise Institute, em um artigo no Financial Times. “Se mantida, essa guerra comercial provavelmente causará uma recessão.”

Anunciadas como uma política de “reciprocidade tarifária” por Trump, os novos impostos de importação na verdade foram determinados sem levar em conta as tarifas cobradas pelos países atingidos.

A matemática foi de uma simplicidade rudimentar. A Casa Branca pegou o número do déficit comercial dos EUA com um determinado país e depois dividiu o resultado pelas importações feitas desse país. A fração foi então dividida por dois.

Foi assim que Trump e seu time chegaram aos 20% de tarifas adicionais para a União Europeia, de 24% para o Japão, de 32% para Taiwan, de 34% para a China, e de 46% para o Vietnã.

“Isso está para a economia da mesma maneira que o criacionismo está para a biologia, ou a astrologia para a astronomia,” Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro e professor de Harvard, escreveu no X. “A política tarifária de Trump faz pouco sentido mesmo se você acredita no protecionismo mercantilista.”

“É insanidade,” disse Ian Bremmer, CEO da consultoria Eurasia, em comentário na postagem de Summers.

Os eleitores de Trump sentirão no bolso o custo dessa “insanidade.”

De acordo com o Budget Lab, o tarifaço representará uma perda de US$ 3.800 na renda dos domicílios americanos. Para os estratos mais pobres, o impacto médio será de US$ 1.700.

Uma pequena amostra do que pode ocorrer agora em escala ampliada foi vista no primeiro Governo Trump.  A perda de empregos causada pelo encarecimento dos insumos acabou sendo cinco vezes maior do que os empregos criados pela barreira protecionista, mostrou um estudo de dois economistas do Federal Reserve.

Nos países em que os EUA têm superávit – como o Brasil –, a tarifa adicional será de 10%. Parte dos produtos brasileiros estão em uma lista de exceções, então o aumento na tarifa efetiva média deverá ficar em 6,5 pontos percentuais, segundo a Goldman, totalizando 8%.

Os EUA estão em guerra comercial e geopolítica contra a China, mas, como observou o Wall Street Journal em um editorial, a grande ironia é que os chineses poderão ser os maiores ganhadores com as barreiras tarifárias de Trump.

“Em seu primeiro mandato, Trump abandonou o acordo comercial Ásia-Pacífico que excluía a China. Pequim desde então fechou o seu próprio tratado com muitos desses países,” disse o Journal.

Na avaliação do jornal, os laços mais estreitos com os chineses, em meio a dúvidas sobre o acesso ao mercado americano, farão com que esses países sejam menos suscetíveis a se aliar aos EUA em medidas como a restrição ao uso de tecnologia feita na China.

Trump, entretanto, tem se mostrado inabalável. Surfa na onda do sentimento anti-globalização que se cristalizou entre diversas camadas de eleitores nas antigas regiões industriais dos EUA – os chamados ‘perdedores da globalização.’

“Todas as previsões que nossos oponentes fizeram sobre o comércio ao longo dos últimos 30 anos se provaram totalmente erradas,” afirmou Trump no discurso em que anunciou as novas tarifas. “Não podemos fazer o que temos feito nos últimos 50 anos.”

Uma reportagem do New York Times mostrou que esse ressentimento de Trump vem de longe.

Em 1988, Trump deu uma entrevista à apresentadora Oprah Winfrey e disse que, se “alguém vai ao Japão agora tentar vender algo, pode esquecer,” e comentou: “Eles vêm aqui, vendem os carros deles, os videocassetes, e expulsam nossas empresas.”

Se é verdade que os EUA têm hoje grandes déficits na balança de produtos industrializados e o país perdeu empregos nas fábricas, é verdade também que o setor de serviços – que inclui finanças, serviços de tecnologia, seguros e entretenimento – cresceu velozmente nas últimas décadas. Os EUA possuem um folgado superávit comercial com outros países nessa área, praticamente equilibrando o saldo negativo na manufatura.

Mas ver essa realidade exigiria um pingo de bom-senso de Trump e de seus populistas apoiadores do movimento Make American Great Again, MAGA.

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